No seguimento de ameaças de represália que não podem deixar de ser consideradas, mesmo depois dos comentários solicitados a personalidades do mundo académico e cultural, a Chiado Editora decidiu, após cuidada deliberação do seu Conselho Editorial, adiar indefinidamente o lançamento do livro “A Última Madrugada do Islão”, do escritor André Ventura, inicialmente previsto para o dia 18 de Julho de 2009.
A Chiado Editora informa ainda que decidiu solicitar, adicionalmente, dois pareceres sobre o eventual conteúdo ofensivo e controverso da obra em questão, respectivamente ao Sheikh David Munir, líder da Comunidade Islâmica de Lisboa, e ao Professor Mostafa Zekri, especialista em assuntos islâmicos, de forma a melhor compreender as ameaças recebidas e antecipar eventuais cenários problemáticos resultantes da publicação.
Do resultado destes pareceres, dependerá a decisão definitiva sobre a publicação, no mercado português, de “A Última Madrugada do Islão”.
Sendo uma obra de ficção, “A Última Madrugada do Islão” (primeira parte de uma trilogia que o autor pretende publicar nos próximos dois anos) resulta de uma vasta investigação histórica e apresenta pontos que, não obstante originais e interessantes, se revelam particularmente polémicos:
- A recriação do cenário em que morreu o líder histórico dos Palestinianos, Yasser Arafat. Segundo André Ventura, Arafat terá sido vítima de uma gigantesca conspiração interna, destinada a apagar todo um conjunto de elementos comprometedores para a OLP, nomeadamente a sua homossexualidade e a relação com o tráfico de droga internacional.
- A vida de um jovem muçulmano residente em Paris e a sua sobrevivência numa moderna sociedade ocidental. A luta permanente entre o “espírito europeu liberal” e o fundamentalismo islâmico, numa narrativa em que a dimensão religiosa, psicológica e sexual se misturam e se confrontam nas linhas do Corão.
A Chiado Editora preza, naturalmente, a liberdade de expressão e de investigação dos autores portugueses. Porém, os comentários recebidos em relação à obra em causa e a análise da história recente obrigam-na a ser igualmente prudente em relação às publicações que chegam ao mercado, tendo em conta a segurança do autor, editores e distribuidores do livro.
De igual forma, a possibilidade de serem prejudicadas, como aconteceu no passado noutros países, as relações portuguesas com Estados e comunidades islâmicas, muito particularmente a Palestina, impõe sobre a Chiado Editora uma dose acrescida de responsabilidade.
Porém, tendo em conta as responsabilidades assumidas contratualmente para com o autor, a Chiado Editora tentará evitar, até ao limite das suas possibilidades, o cancelamento da edição nacional de “A Última Madrugada do Islão”, continuando também, entretanto, a negociar com editoras estrangeiras eventualmente interessadas em adquirir os direitos da obra.
http://www.chiadoeditora.com/comunicado_imprensa_ultima_madrugada_islao.htm«No seguimento de ameaças de represália que não podem deixar de ser consideradas», a Chiado Editora resolveu adiar indefinidamente o lançamento do livro A Última Madrugada do Islão, de André Ventura. Informa ao mesmo tempo que «decidiu solicitar, adicionalmente, dois pareceres sobre o eventual conteúdo ofensivo e controverso da obra em questão, respectivamente ao Sheikh David Munir, líder da Comunidade Islâmica de Lisboa, e ao Professor Mostafa Zekri, especialista em assuntos islâmicos, de forma a melhor compreender as ameaças recebidas e antecipar eventuais cenários problemáticos resultantes da publicação», adiantando que do resultado destes pareceres «dependerá a decisão definitiva» sobre a publicação do romance.
O livro «resulta de uma vasta investigação histórica e apresenta pontos que, não obstante originais e interessantes, se revelam particularmente polémicos», recriando o cenário em que morreu Yasser Arafat e dramatizando aspectos da vida de um jovem muçulmano em Paris. A editora entende que «os comentários recebidos em relação à obra em causa e a análise da história recente» a forçam a ser «prudente em relação às publicações que chegam ao mercado, tendo em conta a segurança do autor, editores e distribuidores do livro». Sentiu-se ameaçada, portanto. Mas evoca também condicionalismos relacionados com «a possibilidade de serem prejudicadas, como aconteceu no passado noutros países, as relações portuguesas com Estados e comunidades islâmicas, muito particularmente a Palestina».
Aceita-se pois, no país que viveu um pesado regime censório mas conseguiu aboli-lo há 35 anos atrás, que se coíba a circulação de uma obra literária. E admite-se, de forma aparentemente normal, um recuo aos tempos inquisitoriais do imprimatur, agora já não de clérigos arrolados pela Inquisição mas de duas autoridades em assuntos islâmicos. O editor está no seu direito de ter medo das consequências materiais da publicação. Porém, colocado nestes termos, o assunto adquire uma gravidade que ultrapassa a intervenção da Chiado. Afinal, não falamos apenas de uma pequena contrariedade editorial, mas sim de uma grave cedência diante de pressões exteriores, capazes de impor em Portugal limitações à liberdade de criação, de circulação do livro e de opinião. Pressões com força suficiente para atearem a autocensura e o medo.
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